Cerca de 500 mil pessoas protestaram na França no fim de semana. O movimento começou com reivindicações estudantis e ganhou adesão popular.
Após queima de escolas em setembro, os atos incorporaram queixas contra o custo de vida. Especialistas associam a mobilização ao grupo Coletes Amarelos.
No sábado, a polícia prendeu 2.400 pessoas. Já nesta segunda-feira (19), o governo impôs toques de recolher em cidades como Paris.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu culpou a extrema esquerda pelos atos. O partido França Insubmissa nega as acusações de orquestrar a violência.
O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, acusou nesta terça-feira (20) grupos radicais de extrema esquerda de elaborar um “plano insurrecional” que levou a tumultos violentos no fim de semana, à margem de protestos realizados em todo o país contra o custo de vida.
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Durante uma tumultuada sessão do Parlamento, Lecornu condenou “o planejamento, em determinados locais, de um plano insurrecional liderado por grupos de extrema esquerda e setores radicais da esquerda”.
Ele acrescentou que as autoridades não tolerariam que esses grupos “marchassem até o Eliseu ou Matignon”, em referência aos escritórios e residências oficiais do presidente e do primeiro-ministro em Paris.
No último fim de semana, cerca de 500 mil pessoas tomaram as ruas da França durante protestos que chacoalharam o país. Os atos ganharam força após o início de um simples protesto estudantil, que evoluiu para reivindicações sociais mais amplas e desencadeou uma onda de manifestações pela Europa.
▶️ Contexto: O movimento começou em setembro, quando estudantes bloquearam o acesso a uma escola na região de Paris para exigir mais recursos para a instituição. Logo, alunos de outras escolas aderiram aos protestos, e as manifestações se espalharam pelo país.
Os estudantes passaram a reivindicar melhores condições nas salas de aula, mais professores e mais recursos financeiros.Alunos afirmam que estudam em salas superlotadas e reclamam da falta de estrutura básica nos prédios. Além disso, algumas escolas sofrem com a falta de professores.Os atos ocorreram em meio à alta rejeição ao governo do presidente Emmanuel Macron e à proposta de Orçamento para 2027, que prevê o congelamento do salário-base dos funcionários públicos.Nas semanas seguintes, dezenas de escolas foram afetadas pelas manifestações. Professores e outros funcionários públicos também aderiram ao movimento.
Entre o fim de setembro e o início de outubro, a França começou a registrar protestos mais violentos. Duas escolas foram incendiadas, e carros e veículos públicos também foram destruídos. Em algumas cidades, houve confrontos com a polícia, e manifestantes foram presos.
Com o passar dos dias, os protestos ganharam força e incorporaram novas reivindicações. O que começou como uma mobilização estudantil se transformou em uma manifestação de insatisfação generalizada com o alto custo de vida, a queda na qualidade dos serviços públicos e o governo.
Caos em Paris e Marselha
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Os protestos contra o governo francês deixaram um rastro de destruição em várias cidades do país no fim de semana. Paris e Marselha estão entre as mais afetadas.
Em Paris, lojas de luxo fecharam e reforçaram a segurança para se proteger dos protestos.Mesmo assim, a porta de uma boutique da Dior foi quebrada, e vitrines de outras marcas, como Rolex, Louis Vuitton, Ralph Lauren e Gucci, também foram danificadas.Em Marselha, o Olympique de Marseille informou que sua loja oficial, localizada em uma das principais avenidas da cidade, foi saqueada.A filial de Bordeaux das Galerias Lafayette, complexo de compras e um dos principais pontos turísticos da França, foi saqueada.Segundo a Federação do Comércio e Varejo, quase 3 mil lojas foram afetadas durante o fim de semana.
Para conter os atos de violência, a França mobilizou 60 mil policiais e outros agentes de segurança no sábado, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez. No entanto, ele reconheceu que o efetivo não foi suficiente.
Apenas no sábado, cerca de 2.400 pessoas foram presas, e quase mil policiais ficaram feridos, segundo o Ministério do Interior. Um manifestante também morreu após sofrer uma parada cardíaca.
Já na segunda-feira (19), as autoridades impuseram toques de recolher em áreas de várias cidades, incluindo Paris, Lille e Nice, para tentar conter novos episódios de violência e saques.
Os atos também se espalharam por outros países. Manifestações foram registradas na Itália, Albânia e Portugal, por exemplo.
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Crise política
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Diante da crise, o presidente Emmanuel Macron fez um pronunciamento na TV no domingo (18). Ele afirmou que “nada justifica” a violência “desenfreada” e que é preciso separar as reivindicações legítimas dos atos de destruição.
Enquanto isso, o primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, tem responsabilizado a extrema esquerda pela violência nas manifestações. Segundo ele, há uma ala política que quer provocar “uma profunda agitação no país” para influenciar as eleições presidenciais de 2027.
🔎 Segundo a agência Reuters, serviços de inteligência franceses disseram ao governo que a onda de protestos foi iniciada pela extrema esquerda em uma operação orquestrada pelo partido França Insubmissa. A legenda nega as acusações e afirma que defende manifestações pacíficas.
Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa e possível candidato à Presidência, cobrou provas das acusações feitas publicamente pelo primeiro-ministro. “Caso contrário, ele deveria se desculpar, ficar em silêncio e parar de atiçar as chamas da agitação”, disse em entrevista.
Para o cientista político Thomás Zicman de Barros, o governo e a extrema direita podem se aproveitar dos episódios de violência para atacar a oposição e defender medidas mais duras de segurança, em meio à disputa política.
O pesquisador alerta, porém, que reduzir os protestos a um problema de ordem pública pode deixar em segundo plano as causas da mobilização. Ele destaca que, embora os atos de violência e os danos provocados sejam condenáveis, é preciso entender a demanda popular.
“Ao tratar das manifestações apenas como um caso de polícia, o governo não consegue entender o que está por trás disso, que é uma insatisfação”, afirma.
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