Sentado no banco de reservas, minutos antes de a semifinal da Conmebol Libertadores começar, Abel Ferreira balançava a perna incessantemente sem nem sequer imaginar o que viria pela frente.
Começou a quarta-feira jogando padel, pensando em desestressar com a comissão técnica no Palmeiras, e terminou a noite com a mão riscada, a euforia contida e uma dor de cabeça que o impediu até mesmo de lembrar o que havia dito na entrevista da classificação.
Pela quarta vez, e sem assistir aos pênaltis contra o Fluminense no campo, Abel leva o time à final da Libertadores com o sonho, acima de tudo coletivo, de ser campeão.
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– Vou ser muito sincero. Não estou com a euforia toda, não é por estar cansado, mas quando representas um clube do tamanho do Palmeiras, as expectativas dentro de ti são enormes. Parece que normalizamos. O Palmeiras na história tem oito finais, nós conseguimos quatro.
– Eu disse de forma simples e honesta, mas talvez não da melhor forma, que desfrutem. Não sou maior que ninguém. Sou o Normal One.
Uma alusão a José Mourinho, mundialmente conhecido pelo apelido "The Special One", e uma de suas principais referências.
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– Pensei que depois de ganhar a primeira seria mais feliz, e é exatamente o contrário, tudo cada vez mais pesado, como se tivesse obrigação de ganhar. A obrigação é de dar o melhor. Se ganhar ou não, depende de muita coisa.
– Estou feliz porque sei que os torcedores estão felizes, que o estafe e as pessoas no clube estão felizes. Isto me faz feliz, ver os outros felizes. Estou a lutar contra mim mesmo, contra aquilo que já ganhei. O que me faz continuar é ver esta geração nova com a mesma vontade de continuar a ganhar.
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E durante os 98 minutos de bola rolando, Abel se dedicou a empurrar o time com essa vontade. Bebeu três garrafas de água, acocorou-se e gesticulou inúmeras vezes, na tentativa de fazer o time atacar em profundidade. Desceu ao banco de reservas só para conversar, principalmente com o auxiliar João Martins, e assistir no tablet o replay dos lances que haviam acabado de ocorrer.
Aos 34 minutos, começou a escrever recados na mão esquerda. Repetiu o gesto aos 36 e aos 44, com tudo de que precisava lembrar de dizer ao time.
Depois do jogo, com os desenhos ainda pouco visíveis, no corredor de saída do estádio, mostrou as anotações à reportagem.
– Aqui era: "atacarmos em U". Esse era "domínio do Lucas e do Marlon para frente", que só estavam a jogar para trás. Aqui: "baixar, tocar e romper", que era aquilo que Marlon estava a dizer da profundidade. E esse aqui já não sei o que é – contou Abel, apontando com a caneta as palavras na mão.
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Abel se frustrou inúmeras vezes com as chances criadas (e não aproveitadas) no ataque, orientou Giay, Piquerez, Lucas Evangelista e Marlon Freitas na hidratação, mas pouco tempo depois, aos 36 do segundo tempo, saiu o gol do Fluminense. E ele, do banco, fez sinal de calma na direção do campo.
Os minutos finais foram insuficientes, e a derrota por 1 a 0 levou a decisão para os pênaltis. Então, às 23h29, depois de conversar com os atletas ajoelhado no meio da rodinha, Abel deixou o gramado.
– Todos os pênaltis aqui, não vi nenhum. Fiz o trabalho que tinha que fazer com os jogadores, no pré e durante a semana. Não os preparei para bater, porque em treino nada replica a intensidade emocional de um pênalti em dia de jogo.
E oito minutos depois, ele voltou. Com um sorriso largo, classificado, abraçou o auxiliar Tiago Costa e, como fez em outubro do ano passado, ao avançar à final de 2025, procurou a família para mandar um coração e um beijo às arquibancadas.
– Obrigado aos torcedores, à presidente, ao nosso diretor e de forma carinhosa aos jogadores e estafe. Preparem a máquina, que faço o que posso para pilotar.
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