O segundo turno das eleições deste ano, no fim de outubro, renovou o mandato de Celina Leão (PP) no governo do Distrito Federal – e também o mandato de Lula (PT) na Presidência da República.
O resultado mantém ativo o desafio que atravessa a relação institucional entre os dois níveis de governo desde 2023 – e que se intensificou ao longo deste ano. Apenas em 2026, Celina Leão:
se apresentou como aliada de Flávio Bolsonaro e fez oposição a Lula;tentou acordos com o governo Federal para salvar o Banco de Brasília (BRB), mas recebeu críticas do presidente Lula;acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar anular uma lei sancionada por Lula que, segundo o processo, pode afetar repasses do governo federal ao DF.
Para o professor Frederico Bertholini, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, o desafio central de Celina é separar a relação institucional da disputa eleitoral (veja detalhes mais abaixo).
➡️Esta é a terceira de uma série de reportagens sobre os desafios de Celina Leão para o próximo mandato. Até sábado (7), o g1 vai tratar dos principais temas que o futuro governo terá de enfrentar.
➡️Na terça (3), o g1 mostrou os desafios de Celina na saúde pública. Na quarta, os desafios nas contas públicas e na gestão do BRB.
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Em entrevista à TV Globo após a reeleição, Celina afirmou que está disposta a dialogar com o presidente Lula quando for necessário. Assista:
Entenda na reportagem:
o atrito na relação entre Celina Leão e Lula;quais os desafios da governadora;o que diz Celina Leão.
Atritos na relação entre Celina Leão e Lula
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Oposição política
Celina Leão faz oposição ao governo Lula e conduziu sua campanha pela reeleição como aliada de Flávio Bolsonaro (PL) – candidato derrotado no segundo turno presidencial.
Celina é, ainda, amiga pessoal da senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL), esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro. E próxima a lideranças conservadoras como a senadora Damares Alves (Republicanos) e a senadora eleita Bia Kicis (PL).
Nas eleições deste ano, Lula apoiou a candidatura de Leandro Grass (PT) e chegou a participar de uma passeata com o candidato em Ceilândia, no segundo turno. Grass, no entanto, foi derrotado no segundo turno.
Crise do BRB
Desde maio, Celina Leão tenta o apoio do governo federal em busca de uma saída para o Banco de Brasília (BRB). A instituição, que tem o governo do DF como acionista majoritário, enfrenta a maior crise de sua história.
➡️ A crise começou em novembro de 2025, quando a operação Compliance Zero revelou as suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Celina tenta um empréstimo de R$ 6,6 bilhões para recompor o patrimônio da instituição. Em março, ela afirmou que a situação do banco estava acima de interesses políticos e que não descartava pedir ajuda ao presidente. Ela chegou a pedir uma reunião com Lula para tratar da crise.
O governo federal informou que não pode dar garantia a essa operação, mas o DF vem insistindo no pedido.
Em setembro, a relação ficou mais conflituosa: Lula criticou Celina publicamente e disse que o governo federal não vai "dar dinheiro" para o BRB.
"Vocês estão acompanhando o que aconteceu com o BRB. A governadora, de forma cínica e mentirosa, quer jogar a responsabilidade no governo federal", rebateu Lula.
Celina retrucou as declarações do presidente nas redes sociais. Dias depois, ela processou Lula e pediu indenização por dano moral, no Tribunal de Justiça do DF.
Fundo Constitucional
Também em setembro deste ano, o governo do DF acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para questionar uma lei sancionada pelo presidente Lula que autoriza a União a usar recursos do pré-sal para reduzir o preço dos combustíveis no país.
A lei incluiu uma série de outros dispositivos fiscais – entre eles, novas regras de ajuste fiscal para 2027 em diante.
Segundo o governo do DF, essas regras podem impactar duplamente o Fundo Constitucional do DF — repasse bilionário feito pela União todos os anos para cobrir parte do orçamento distrital de saúde, segurança pública e educação.
Desafios da governadora
Para Frederico Bertholini, a oposição de Celina a Lula durante a campanha é o ponto mais fácil de superar. "Passada a eleição os dois lados têm incentivos para baixar o tom".
"O BRB é o mais difícil. O governo federal não quer se associar ao caso Master, e as trocas de acusações entre Lula e Celina na campanha deixaram marcas pessoais. O Fundo Constitucional é uma disputa sobre regra fiscal e já está no STF, o que tira parte do conflito da arena ideológica", diz o professor.
Para Bertholini, o BRB será o “teste real” da relação entre Celina e Lula. Ele avalia que será difícil para o governo do DF contornar a crise sem a participação do governo federal, já que mesmo uma eventual saída com investidores ou bancos estrangeiros passa por instituições federais.
O professor também destaca outros três pontos que podem interferir:
relação de Celina com o PL: o partido "saiu das urnas como a força dominante da direita no DF, com as duas vagas ao Senado e a maior bancada distrital. Uma aproximação com Lula tem custo dentro da própria base". calendário das próximas eleições: Celina não pode disputar o governo em 2030. "Qualquer projeto futuro dela depende do campo bolsonarista", diz o professor. negociações a favor de Celina: o PP é um partido pivô na nova Câmara dos Deputados – e Lula pode precisar da legenda para governar. "Isso dá a Celina canais de negociação indiretos", avalia Bertholini.
O que diz Celina Leão
Em entrevista para a TV Globo, dois dias após se reeleita, Celina disse que vai dialogar com Lula quando necessário.
“As pessoas esperam que uma governadora esteja sempre pronta para dialogar. Eu estou à altura de Brasília. Todas as vezes que eu precisar de buscar o presidente da República, eu vou buscá-lo, vou buscar uma interlocução para trazer aquilo que for necessário para o DF”, declarou.
ENTENDA: governadora foi eleita ou reeleita? Pode se candidatar em 2030? Entenda o que diz a leiVEJA NÚMEROS: Celina Leão ganhou 161 mil votos entre o 1º e o 2º turno; Leandro Grass, 169 mil




