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Por que quem vota diferente parece não enxergar o óbvio? Entenda o 'realismo ingênuo'

01/11/2026

Por que quem vota diferente parece não enxergar o óbvio? Entenda o 'realismo ingênuo'

Eleitor registra voto no 2º turno das Eleições 2026 em Pernambuco

Reprodução/TV Globo

Duas pessoas assistem ao mesmo debate eleitoral, ouvem os mesmos candidatos e acompanham as mesmas notícias. Ao final, chegam a conclusões completamente diferentes. Para uma, a escolha parece óbvia. Para a outra, é difícil entender como alguém pode pensar daquela maneira.

E o mais curioso: as duas podem estar convencidas de que estão enxergando a realidade como ela realmente é —e de que o problema está na incapacidade do outro de perceber o evidente.

Essa tendência tem nome: realismo ingênuo, um fenômeno estudado pela psicologia social que ajuda a explicar por que divergências de opinião, especialmente em períodos eleitorais, podem se transformar em conflitos pessoais.

O conceito foi desenvolvido em pesquisas do psicólogo americano Lee Ross e de seus colaboradores, a partir da década de 1990. Ele descreve a tendência humana de acreditar que nossas percepções são objetivas e de presumir que outras pessoas, se forem suficientemente racionais e bem informadas, chegarão às mesmas conclusões.

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Quando isso não acontece, surge uma explicação aparentemente simples: o outro está desinformado, foi manipulado ou não consegue raciocinar corretamente.

Mas o que parece uma avaliação puramente racional envolve também emoções, experiências pessoais e desejos.

Segundo o psicanalista, escritor e professor Christian Dunker, titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), o problema começa quando deixamos de reconhecer que nossa percepção é apenas uma das maneiras possíveis de interpretar o mundo.

"Entre nós e a realidade existem nossas fantasias, nossas ilusões, nossas memórias", explica.

Isso significa que não interpretamos os acontecimentos apenas com base nas informações que recebemos. Nossa história, nossas expectativas e aquilo que desejamos também influenciam a maneira como atribuímos sentido aos fatos.

Por que é tão difícil aceitar que alguém pense diferente?

Para Dunker, uma das razões está no fato de que nossas convicções não são construídas exclusivamente pela lógica.

Existe também uma dimensão emocional. Temos satisfação em reencontrar ideias conhecidas, reconhecer aquilo em que já acreditamos e preservar interpretações que fazem sentido para nossa história.

Na psicanálise, essa relação é compreendida a partir das fantasias inconscientes, que participam da maneira como interpretamos a realidade.

É por isso que apresentar novos argumentos ou informações nem sempre é suficiente para convencer alguém a mudar de opinião.

Segundo Dunker, as pessoas não estão apenas defendendo aquilo que acreditam ser verdadeiro. Muitas vezes, estão protegendo uma maneira de enxergar o mundo que também lhes proporciona segurança e satisfação emocional.

Quando alguém questiona essa visão, o desconforto pode ir além da discordância intelectual.

"Elas são ameaças ao que a gente deseja para o mundo", afirma o psicanalista, ao explicar por que opiniões contrárias podem provocar reações tão intensas.

O que isso tem a ver com as eleições?

Nas eleições, esse mecanismo pode ganhar força porque as escolhas políticas envolvem mais do que propostas de governo ou avaliações sobre candidatos.

Elas também expressam expectativas sobre o futuro, valores pessoais e a sociedade em que cada pessoa gostaria de viver.

"Um voto é um desejo", resume Dunker.

Segundo ele, a política é justamente o espaço em que diferentes desejos e interesses se encontram e entram em conflito.

O problema aparece quando a identificação com determinada posição política se torna tão intensa que qualquer discordância passa a ser percebida como uma ameaça à própria identidade.

Nesse cenário, a discussão deixa de ser apenas sobre qual projeto de sociedade uma pessoa considera mais adequado e passa a envolver quem ela acredita ser —e quem imagina que o outro seja.

É nesse ponto que a divergência política pode se transformar em julgamento moral.

Em vez de tentar compreender por que alguém chegou a uma conclusão diferente, passamos a atribuir à pessoa características negativas: ela é ignorante, mal-intencionada ou não tem valores.

Dunker explica que essa reação também pode estar relacionada à dificuldade de reconhecer nossas próprias contradições.

Quando não conseguimos admitir que podemos mudar de opinião ou que nossos desejos são complexos, tendemos a enxergar o outro como alguém igualmente incapaz de mudar. A diferença, então, deixa de ser interpretada como resultado de outras experiências e expectativas e passa a ser vista como um defeito de caráter.

Essa percepção também já foi observada em pesquisas sobre comportamento eleitoral.

Um estudo publicado em 2020 na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), com participação de Lee Ross, analisou eleitores de Donald Trump e Hillary Clinton durante a campanha presidencial americana de 2016.

Os pesquisadores identificaram que apoiadores dos dois candidatos tendiam a considerar as pessoas de seu próprio grupo mais influenciadas por fatos e argumentos legítimos, enquanto atribuíam as posições dos adversários à desinformação, à propaganda e a outros vieses.

O estudo também encontrou uma associação entre essa percepção de objetividade e o aumento da hostilidade contra adversários políticos.

Isso não significa, porém, que todas as opiniões sejam igualmente fundamentadas ou que fatos possam ser substituídos por interpretações pessoais.

O realismo ingênuo descreve a maneira como avaliamos nossas próprias convicções e as dos outros, não elimina a diferença entre informações verdadeiras e falsas.

Por que as eleições provocam tantas brigas entre familiares?

A dificuldade de lidar com opiniões diferentes também ajuda a entender por que discussões políticas podem abalar relações entre pais e filhos, irmãos, amigos e casais.

Mas, segundo Dunker, nem sempre essas divergências começam com a política.

Muitas vezes, conflitos familiares já existiam, embora não fossem discutidos abertamente. As disputas eleitorais acabam oferecendo uma nova maneira de expressar ressentimentos, frustrações e diferenças acumuladas ao longo dos anos.

"O que o processo político faz é acirrar essas antigas mazelas", explica.

O psicanalista cita, por exemplo, as relações entre pais e filhos. Mesmo quando existe afeto, elas podem carregar conflitos relacionados à autoridade, à autonomia e às diferenças entre gerações.

Em um ambiente de polarização, essas tensões podem encontrar novas formas de manifestação.

Uma discussão aparentemente centrada em candidatos ou propostas políticas pode, assim, estar atravessada por questões muito anteriores à eleição.

Para Dunker, isso acontece quando levamos para as relações privadas formas de confronto que pertencem ao debate público, transformando diferenças políticas em disputas pessoais.

E qual é o papel das redes sociais?

As redes sociais acrescentam outra camada a esse fenômeno.

Segundo Dunker, as plataformas digitais criam um ambiente em que opiniões são expostas continuamente, muitas vezes diante de públicos amplos e desconhecidos.

A comunicação também perde elementos importantes das conversas presenciais, como o tom de voz, as expressões e a possibilidade de esclarecer imediatamente um mal-entendido.

Uma mensagem recebida em um grupo de WhatsApp, por exemplo, pode ser interpretada de maneira completamente diferente dependendo do estado emocional de quem a lê.

Além disso, o psicanalista chama atenção para os incentivos econômicos das plataformas, que dependem do engajamento dos usuários.

Na avaliação dele, conteúdos que provocam indignação e hostilidade podem ganhar espaço justamente pela capacidade de estimular reações.

A combinação desses fatores favorece interpretações equivocadas, reforça convicções e dificulta o diálogo entre pessoas que já pensam de maneiras diferentes.

Como saber se estamos sendo vítimas do realismo ingênuo?

Essa talvez seja a parte mais difícil: reconhecer o realismo ingênuo em nós mesmos exige questionar justamente aquilo que consideramos evidente.

Dunker ressalta que ninguém está completamente imune ao fenômeno.

"Todos nós somos, sob certas circunstâncias, presa fácil para o realismo ingênuo", afirma.

Segundo ele, momentos de angústia, pressão emocional e ressentimento podem aumentar a dificuldade de lidar com informações que contradizem nossas expectativas.

Nessas situações, tendemos a procurar explicações mais simples e interpretações que confirmem aquilo em que já acreditamos.

O psicanalista também chama atenção para o fato de que a realidade frequentemente nos frustra: ela apresenta contradições, impõe limites e nem sempre corresponde ao que desejamos.

Por isso, em situações de sofrimento psíquico, a tendência a se apegar a uma visão rígida do mundo pode ser mais uma consequência do mal-estar do que sua causa.

A reflexão proposta por Dunker passa, portanto, pela capacidade de reconhecer nossas próprias incertezas, admitir contradições e compreender que outras pessoas podem ter experiências e desejos diferentes dos nossos.

Isso não exige abrir mão de convicções nem deixar de confrontar informações falsas. Significa reconhecer que ter certeza de alguma coisa não é, por si só, uma garantia de estar certo.

E, nas discussões políticas, essa percepção pode fazer diferença: antes de concluir que o outro é incapaz de enxergar o óbvio, vale considerar que ele talvez esteja pensando exatamente a mesma coisa sobre nós.

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