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Eleições nos EUA: como apoio a Israel e guerra em Gaza afetam disputa ao Senado

03/11/2026

Eleições nos EUA: como apoio a Israel e guerra em Gaza afetam disputa ao Senado

Eleições nos EUA: como apoio a Israel e guerra em Gaza afetam disputa ao Senado.

Anadolu/Getty Images via BBC

Samraa Luqman sempre foi democrata. Mas ela votou com orgulho na reeleição de Donald Trump para a Presidência americana, em 2024.

Uma única questão motivou seu voto naquela oportunidade. E este mesmo fator, agora, define sua escolha nas eleições de meio de mandato desta semana nos Estados Unidos (conhecidas como midterms, em inglês).

"É Gaza ou nada", declarou a iemenita-americana ao programa de rádio The Global Story, do Serviço Mundial da BBC. "Se você não for bom sobre Gaza, Israel e a Palestina, não precisamos de você no poder e não precisamos votar em você, não importa qual seja a sua filiação partidária."

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Irritados com o apoio americano a Israel, eleitores tradicionais do Partido Democrata, como Luqman, ajudaram a construir a vitória do Partido Republicano no crucial Estado-pêndulo de Michigan, em 2024.

Agora, preocupações semelhantes mobilizam eleitores dos dois lados do debate em uma das disputas mais acirradas das eleições deste ano.

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A briga pela vaga em aberto de Michigan no Senado americano é fundamental para determinar qual partido irá controlar o Congresso do país no restante do mandato de Donald Trump.

Os democratas precisam manter esta vaga. Os republicanos precisam da virada. E, à medida que chega o dia da eleição, a decisão parece um cara-ou-coroa.

De um lado, está o médico democrata Abdul El-Sayed. Se for eleito nesta terça-feira (3/11), ele se tornará o primeiro senador muçulmano dos Estados Unidos.

Seu oponente é o republicano Mike Rogers, ex-agente do FBI, a polícia federal americana. Ele foi membro da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos por 14 anos.

Mais de 100 mil eleitores 'não comprometidos' se recusaram a oferecer seu apoio nas eleições primárias do Partido Democrata em Michigan de 2024.

Anadolu/Getty Images via BBC

As midterms normalmente se concentram em questões domésticas, como a economia e o custo de vida. Mas a guerra em Gaza se tornou quase uma prova de fogo para os eleitores de Michigan.

Por diferentes motivos, os dois candidatos destacaram os gastos americanos no conflito. Segundo o projeto Custos da Guerra da Universidade Brown, em Rhode Island (EUA), estas despesas ultrapassaram US$ 31 bilhões (cerca de R$ 169 bilhões) nos primeiros dois anos.

Apoiado por Trump, Rogers afirma que a ajuda militar à operação de Israel após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 é uma questão de segurança nacional para os Estados Unidos.

Já El-Sayed, progressista declarado, denunciou repetidamente o uso de dinheiro dos impostos pagos pelos americanos para financiar o que ele descreve como genocídio — uma acusação que Israel rejeita veementemente.

Nas eleições primárias que levaram à sua indicação como candidato do Partido Democrata ao Senado pelo Estado de Michigan, El-Sayed venceu, por estreita margem, sua adversária moderada Haley Stevens, fiel defensora de Israel.

Mas, dois dias antes da abertura das urnas nesta terça-feira (3/11), Stevens surpreendeu seus colegas democratas ao apoiar Rogers publicamente. Ela chama a disputa entre os candidatos dos dois partidos de batalha pela "consciência do Senado" e de referendo sobre o "ódio".

O inesperado apoio de Stevens veio após uma intensa campanha, criticada pelos frequentes ataques islamofóbicos e antissemitas. E levou as tensões ideológicas latentes ao limite.

Samraa Luqman, que sempre foi democrata, fez campanha por Donald Trump durante as eleições presidenciais americanas de 2024.

AFP/Getty Images via BBC

Michigan abriga o maior percentual de árabes-americanos de qualquer Estado do país. E também uma população considerável de eleitores judeus, fortes apoiadores de Israel.

Historicamente, as duas comunidades formam um pilar fundamental dos democratas. Mas, em 2024, a situação mudou.

Decepcionados com a política externa democrata para o Oriente Médio, eleitores árabes e muçulmanos organizaram uma campanha para recusar seu apoio ao partido.

E, quando a candidatura à Presidência passou para a então vice-presidente Kamala Harris, com suas promessas de continuidade, eleitores como Luqman se sentiram traídos.

"Fiquei furiosa porque fui democrata por toda a vida", ela conta, "e não foi só porque eles não disseram a palavra 'cessar-fogo', nem tentaram suspender o genocídio."

"Foi especificamente porque eles se mantiveram firmes e disseram: 'Não fizemos nada de errado. Iremos continuar com nossas políticas.'"

Em resposta, Luqman se uniu à onda de eleitores muçulmanos em apoio a Trump.

"Eu não só votei", segundo ela. "Fiz campanha para ele."

Agora, Luqman se considera republicana, mas apoia entusiasticamente El-Sayed para o Senado.

El-Sayed cumprimenta apoiadores em um evento de campanha em Detroit, no Estado americano de Michigan, no sábado (24/10)

Bloomberg/Getty Images via BBC

Os comícios de Rogers também atraem apoiadores igualmente animados.

Getty Images via BBC

Outro eleitor árabe-americano, Amer Zahar, conta que foi preciso o alerta da eleição de 2024 para que o Partido Democrata adotasse um candidato pró-Palestina como El-Sayed.

"O Partido Democrata nem sempre me ouve e acho que nem sempre ouve a nossa comunidade", segundo ele.

"Precisávamos causar uma revolução no Partido Democrata e foi o que fizemos em 2024... Por isso, depois daquela revolução e da vitória de candidatos bons em relação à Palestina, o partido se tornou muito mais do que um lar para nós."

Em Michigan, o Partido Democrata pode ter atendido às preocupações de muitos eleitores árabes-americanos. Mas, agora, um outro grupo expressa seu receio de ficar abandonado.

El-Sayed nega que esteja tentando justificar um ataque violento a uma sinagoga por alguém que perdeu parentes em um ataque aéreo israelense.

AFP/Getty Images via BBC

Alguns eleitores questionam a capacidade de El-Sayed de proteger a comunidade judaica em um momento de crise.

Após um ataque violento à sinagoga Templo Israel em Michigan, no mês de março, o candidato disse que "pessoas feridas machucam as outras pessoas". O responsável pelo ataque havia perdido parentes em um ataque aéreo israelense no Líbano.

El-Sayed pediu desculpas posteriormente. Ele afirmou que não estava tentando justificar o ataque, mas seu pronunciamento não desfez totalmente as tensões.

"Aquilo realmente foi um soco no estômago", afirmou o presidente do Conselho de Rabinos de Michigan, Aaron Starr. Ele declarou publicamente que não irá votar em El-Sayed.

"A maior parte da nossa comunidade votou nos democratas e, agora, tem a sensação de que a linguagem e as ações de membros do Partido Democrata — não todos, mas de certos candidatos do Partido Democrata — estão colocando nossa segurança em risco", afirmou Starr ao Serviço Mundial da BBC.

Rogers vem tentando conquistar os votos dos eleitores judeus, mostrando que é forte amigo de Israel.

Getty Images via BBC

Como fizeram alguns dos democratas muçulmanos de Michigan em 2024, existem democratas judeus convictos que, agora, votarão no candidato republicano, ou irão se abster de votar.

"Sou democrata, mas, antes de tudo, preciso acreditar que a pessoa em quem estou votando me respeita, a mim, à minha política e à minha existência", declarou o advogado e membro do conselho da Universidade de Michigan, Jordan Acker.

Ele conhece El-Sayed há 20 anos e eles estudaram juntos na universidade. Mas Acker não tem certeza se irá votar no seu antigo colega de classe.

"Na visão de mundo de Abdul, parece que os judeus são aceitáveis como indivíduos. Os judeus não são aceitáveis como povo. E, para mim, isso é extremamente preocupante."

A esposa de Rogers, Kristi, acompanha o candidato republicano na campanha para o Senado.

Getty Images via BBC

Paralelamente, Rogers vem tentando conquistar os eleitores judeus do Estado, mostrando que ele é um forte amigo de Israel. E também já chamou El-Sayed de "antijudeus".

Os críticos acusam Rogers de alimentar a islamofobia, tentando rotular seu adversário como simpatizante do extremismo islâmico.

Rogers e Trump acusaram El-Sayed, cuja família imigrou do Egito, de manter vínculos com a Irmandade Muçulmana. El-Sayed manifestou repetidamente seu repúdio e negou qualquer conexão com o grupo.

Para uma parcela significativa do eleitorado, a acalorada campanha para o Senado americano exacerbou não apenas as divisões partidárias, mas também tensões étnicas e raciais. Mas o eleitor judeu David Freund, apoiador de El-Sayed, não está muito preocupado com os efeitos de longo prazo.

"A segurança para todas as minorias depende de defender todas as minorias", segundo ele.

"A segurança dos judeus não será preservada como uma categoria separada, chamada 'segurança judaica'. Ela faz parte da questão geral sobre os direitos democráticos de todas as pessoas."

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