O drama cômico "Cavalo selvagem nove", dirigido por Martin McDonagh (Os banshees de Inisherin), estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (5).
John Malkovich desponta como favorito ao Oscar de Melhor Ator ao interpretar um espião veterano e viciado da CIA às vésperas do golpe militar no Chile em 1973.
O longa retoma a dinâmica de duplas do cineasta irlandês, colocando Malkovich e Sam Rockwell em diálogos existenciais e melancólicos na Ilha de Páscoa.
A produção ganha contornos contemporâneos ao refletir sobre a violência e as marcas deixadas por intervenções governamentais e corporativas na América Latina.
Dois homens de gerações diferentes caminham por um cenário bucólico e inusitado enquanto conversam sobre vida, morte e a estranha amizade que os conecta.
A fórmula adotada pelo cineasta irlandês Martin McDonagh em três de seus cinco filmes poderia ficar cansativa em "Cavalo selvagem nove", mas é salva pelo charme habitual de seus roteiros e por duas das melhores atuações do ano.
A obra que estreia nesta quinta-feira (5) nos cinemas brasileiros já é uma das favoritas ao Oscar 2027 – e, mais do que isso, tem tudo para dar ao veterano John Malkovich a primeira estatueta de sua carreira.
Ao lado do também incrível Sam Rockwell (que já venceu como ator coadjuvante em "Três anúncios para um crime", uma das exceções ao formato na carreira de McDonagh), o ator de 72 anos é um dos poucos que conseguiriam equilibrar o carisma e a repulsa necessários para o sucesso do filme.
Em suas mãos, o espião da CIA viciado e politicamente incorreto – participante de inúmeros golpes contra democracias pelo mundo – vira um senhorzinho incorrigível, mas simpático, uma figura digna de amor e empatia.
Ele cometeu alguns assassinatos políticos, sim, mas quem entre nós não se identifica com a inevitável e profunda melancolia de refletir sobre sua própria mortalidade em um local paradisíaco?
Com Rockwell, Malkovich forma um "casal improvável" à altura de Colin Farrell e Brendan Gleeson, dupla favorita do diretor no ainda superior "Na mira do chefe" (2008) e em "Os banshees de Inisherin" (2022).
Com uma ternura sincera, e menos aspereza do que as farpas trocadas por seus antecessores irlandeses, os americanos combinam melhor com o contraste entre a contemplação inerente em toda obra de McDonagh e a energia ensolarada da Ilha de Páscoa, onde a história acontece.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/k/A/fd7MACTDq3u5AjdhiE8g/cavalo-selvagem-nove-john-malkovich-sam-rockwell-pascoa.jpg)
Cabeções filosóficos
Em seu roteiro, o diretor (e dramaturgo) narra a última missão de dois espiões da CIA, em uma viagem à terra das famosas estátuas de cabeças gigantes, pouco antes do golpe militar – financiado pelos Estados Unidos – no Chile, em 1973.
Doente e forçado a encarar seu legado, o mais velho deles irrita a chefia ao falar demais em público. O que inclui a gravação de suas memórias para a publicação de uma autobiografia – um desejo no mínimo condenável na indústria da intriga internacional.
Graças à fotografia iluminada de Ben Davis e à montagem ágil de Mikkel E. G. Nielsen, que trabalharam em "Banshees", "Cavalo selvagem nove" se eleva, mesmo que de leve, sobre o antecessor.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2026/z/p/J1oRoeRkqpj2y80K8yVw/cavalo-selvagem-nove-steve-buscemi-sam-rockwell-pascoa.jpg)
Pode não ser tão profundo, ou até tão transgressor, mas se traduz em uma urgência maior, graças aos diálogos afiados de McDonagh nas bocas de atores do calibre de Malkovich e Steve Buscemi (que também merecia uma indicação como coadjuvante, em um ano menos disputado).
Com o longo tempo para tirar um projeto do papel, é improvável que fosse intenção do diretor lidar com um tema tão atual ao escrever a trama – mas, em 2026, é praticamente impossível não sentir os reflexos da intervenção ianque, governamental ou corporativa, em eventos recentes, como na Venezuela ou até no Brasil.
Até "Cavalo selvagem nove", a ideia de substituir Farrell e Gleeson como a musa do cineasta parecia bobagem. Agora, a repetição da fórmula até parece valer a pena. Desde que o irlandês continue a testar novas e inesperadas parcerias.




