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Alunos de Medicina em MG hostilizam bolsistas em grupo de WhatsApp após vitória de Lula: 'divide a bolsa com o MST'

29/10/2026

Alunos de Medicina em MG hostilizam bolsistas em grupo de WhatsApp após vitória de Lula: 'divide a bolsa com o MST'

O Imepac abriu processo administrativo contra 2 estudantes de Medicina por ofensas a bolsistas em rede social após a eleição no domingo (25).

Nas mensagens, os estudantes hostilizaram alunos do Prouni, do Fies e que vendem produtos para custear despesas.

O Imepac e o Diretório Acadêmico publicaram notas de repúdio contra a intolerância. A instituição informou que avalia as medidas cabíveis.

Uma bolsista de 21 anos que vende trufas relatou ter se sentido humilhada pelos colegas.

Outros bolsistas afirmaram que as divergências políticas foram usadas para atacá-los.

Dois alunos de 19 anos do curso de Medicina do Instituto Master de Ensino Presidente Antônio Carlos (Imepac), em Araguari, no Triângulo Mineiro, são alvo de um processo administrativo disciplinar aberto pela instituição para apurar ofensas a colegas bolsistas em um grupo de WhatsApp. Os áudios foram enviados na noite de domingo (25), após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os nomes dos envolvidos não foram divulgados para preservar a identidade das vítimas.

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Gravações de tela das conversas às quais o g1 teve acesso mostram os áudios enviados pelos dois estudantes por volta das 21h50, no grupo da turma de Medicina. Ouça acima.

Nas mensagens, os estudantes insultaram colegas que recebem bolsas do Programa Universidade para Todos (Prouni) ou têm financiamento pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Entre os alvos estão alunos que vendem trufas e outros produtos para ajudar a pagar as despesas com os estudos e o custo de vida na cidade.

"Agora quem votou no Lulinha, que está há 20 anos prometendo picanha, quem vier vender trufa [...]. Falar que as minas gostosas que estão com o Lula. Vai todo mundo se f*. Pega a p* da sua bolsa de Prouni, de Fies e divide com a p* do MST", disse um dos estudantes.

Um boletim de ocorrência por difamação foi registrado contra os responsáveis pelas mensagens na manhã de quarta-feira (28).

A reportagem entrou em contato com a Polícia Civil para saber se um inquérito para apurar a suspeita de difamação foi aberto, mas não havia obtido retorno até a última atualização da matéria.

Em comunicado publicado nas redes sociais, o Imepac repudiou manifestações de intolerância ou discriminação por convicções políticas ou condição socioeconômica. A instituição informou que abriu um processo para apurar os fatos e avaliar as medidas cabíveis, respeitando as normas internas e o direito de defesa. Leia a nota completa abaixo.

O Diretório Acadêmico Diogo Guimarães também publicou uma nota de repúdio nas redes sociais. A publicação recebeu mensagens de apoio de alunos nos comentários.

Mensagens foram direcionadas à colega de turma

"Eu quero ver nego vender trufa para o meu lado. Vai enfiar tudo no c*, seus petistas do c* [...]. Quero que vocês enfiem essas m* que vocês vendem tudo no meio do c*, seus petistas do c*", disse umas das estudantes.

Uma estudante de 21 anos, natural de Uberlândia, ingressou na instituição no início de 2026 e preferiu não se identificar. Bolsista, ela vende trufas para ajudar a se manter em Araguari. A jovem relatou que se sentiu diretamente atacada e humilhada pelos colegas.

“Foi discriminação socioeconômica pura. Antes das eleições, muito provavelmente eu já não era vista com bons olhos, porque se eu nem cheguei a me posicionar e eles foram tão cruéis, acredito que era um posicionamento que eles já tinham”, disse a estudante.

Segundo ela, as mensagens podem estar relacionadas a tentativas de boicote a pessoas que votaram no PT, prática que, na avaliação da estudante, vem ganhando força em diferentes espaços.

A estudante afirmou que não havia manifestado publicamente nenhuma preferência política durante a campanha. Após o resultado do segundo turno, publicou uma foto no Instagram em que declarou o posicionamento.

Ela disse que sempre manteve uma convivência respeitosa com os colegas e que as ofensas a pegaram de surpresa.

“A única coisa que me permite estudar o curso dos meus sonhos é essa política pública de acesso à universidade”, afirmou.

A estudante relatou que figurinhas ofensivas contra eleitores do PT já circulavam no grupo antes do primeiro turno e que esse tipo de mensagem havia se tornado frequente.

Ainda segundo a estudante, após a vitória de Lula, as mensagens se tornaram mais ofensivas. Outros alunos da turma tentaram acalmar os colegas.

“Eu me senti muito humilhada, não tinha como desvincular a minha imagem, era sobre mim que eles estavam falando. Mas também sobre vários outros estudantes bolsistas que se sentiram diminuídos e desrespeitados. Foi muito triste. Em momento nenhum eu desrespeitei ninguém, sempre fui muito discreta. Chorei bastante e busquei apoio da minha família e do meu namorado”, relatou.

A estudante disse que foi a primeira vez que sofreu um ataque desse tipo. No entanto, após divulgar o caso e denunciá-lo à faculdade, outros estudantes relataram episódios semelhantes.

Outra estudante bolsista também afirmou que se sentiu ofendida. Na avaliação dela, a presença de alunos que recebem auxílio financeiro para cursar Medicina incomoda alguns colegas que pagam pela formação. Ela acredita que as divergências políticas foram usadas para atacá-los.

“Eles se sentem no direito e não dá para passar impune. A faculdade precisa ser mais rígida com essas pessoas”, relatou.

O g1 entrou em contato com o Imepac para saber quais medidas administrativas poderão ser adotadas, se a instituição avalia a expulsão dos alunos e quais são os próximos encaminhamentos previstos, mas não havia obtido resposta até a última atualização desta matéria.

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O que disse o Imepac

"O Centro Universitário IMEPAC repudia qualquer manifestação de intolerância ou discriminação, seja por convicções políticas ou por condição socioeconômica. A instituição reafirma seu compromisso com a liberdade de expressão, a pluralidade de ideias e o respeito as diferenças, princípios fundamentais para a convivência acadêmica e a formação ética e humanizada dos futuros profissionais.

Diante dos episódios de intolerância relatados nesta semana contra estudantes, foi instaurado um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar os fatos e adotar as medidas cabíveis, com rigorosa observância das normas regimentais e do direito de defesa.

A instituição também disponibiliza acolhimento e suporte aos estudantes atingidos, por meio de seus canais de apoio, e reforça que todos têm direito a um ambiente universitário seguro, inclusivo e livre de discriminação".

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