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A força dos termoplásticos na indústria de Manaus

22/10/2026

A força dos termoplásticos na indústria de Manaus

Quando se fala no Polo Industrial de Manaus (PIM), motocicletas, celulares e televisores costumam ocupar o centro da conversa. Mas um segmento menos visível para o consumidor merece atenção pelo desempenho e pelas conexões com diferentes atividades econômicas: o termoplástico. Seu avanço envolve mercados, fornecedores, tecnologia e a capacidade do Amazonas de ampliar sua participação nas cadeias industriais.

Segundo o caderno de indicadores da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), o subsetor faturou aproximadamente R$ 17,7 bilhões entre janeiro e agosto de 2026, ante R$ 13,3 bilhões no mesmo período de 2025. O crescimento nominal ficou próximo de 33%. Com participação de cerca de 10,7% no faturamento do PIM, figura entre os cinco maiores segmentos na classificação apresentada pela autarquia.

É um avanço expressivo, mas que precisa ser compreendido para orientar decisões de investimento e desenvolvimento industrial. A receita mostra a dimensão econômica alcançada; não explica, sozinha, de onde veio todo o crescimento nem se esse movimento será duradouro.

Termoplásticos são materiais que amolecem quando aquecidos e podem ser moldados em diferentes formatos. Estão presentes em embalagens, carcaças, peças técnicas e componentes. Essa diversidade de aplicações ajuda a entender sua ligação com outras indústrias: quando aumenta a produção de bens que utilizam peças plásticas, podem surgir novas encomendas para os fornecedores desses materiais e produtos.

Em Manaus, há sinais compatíveis com essa dinâmica. Entre janeiro e agosto, a produção de motocicletas, motonetas e ciclomotores avançou aproximadamente 10,8%; a de celulares, 9,2%; e a de micro-ondas, 16,8%, segundo a Suframa. Esses resultados mostram o aquecimento de parte do parque industrial, embora não permitam calcular quanto cada atividade contribuiu para a expansão dos termoplásticos.

A leitura do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam) reforça esse ambiente de demanda. Em análise divulgada em setembro, a entidade apontou que duas rodas operava perto da capacidade máxima, diante de um mercado firme, e também destacou o desempenho de informática e eletrônicos. O crescimento dessas atividades oferece uma explicação plausível para parte das oportunidades dos fornecedores. Seria insuficiente, porém, atribuir todo o resultado dos termoplásticos às montadoras locais.

Um mercado que ultrapassa Manaus

O detalhamento da Suframa recomenda ampliar o olhar. Até agosto, aproximadamente 86% do faturamento do subsetor termoplástico estava classificado como destinado ao mercado nacional, cerca de 14% ao regional e uma parcela inferior a 0,1% ao exterior. A aquisição de insumos também mostra conexões externas: aproximadamente 59% do valor das compras tinha origem estrangeira.

Essa distribuição muda a interpretação do crescimento. A expansão industrial local pode favorecer fornecedores, mas a sustentação do setor também depende de sua capacidade de disputar clientes em outras regiões. Para compreender o resultado, é necessário considerar o mercado brasileiro, a composição dos produtos vendidos e a competitividade das empresas que produzem em Manaus.

No país, o cenário combina oportunidades e pressão competitiva. Segundo o Perfil Abiplast 2026, elaborado pela Associação Brasileira da Indústria do Plástico, a produção de transformados plásticos alcançou aproximadamente 7,6 milhões de toneladas em 2025, alta de 1,3%. O consumo aparente, indicador que considera produção nacional, importações e exportações, cresceu 1,6%, enquanto as importações avançaram 20% em volume. Parte do mercado brasileiro, portanto, vem sendo atendida por mercadorias fabricadas no exterior.

Os períodos e as medidas são diferentes: a estatística brasileira retrata produção física em 2025; a de Manaus, faturamento nos oito primeiros meses de 2026. Não cabe comparar diretamente essas taxas. Ainda assim, o panorama nacional aponta que o aumento do consumo não garante, por si só, mais espaço para os fabricantes brasileiros.

Também é preciso distinguir receita de quantidade produzida. Preços, volume vendido e mudanças na composição dos produtos podem elevar o faturamento. Os dados agregados consultados não separam esses efeitos nem identificam a contribuição de cada grupo comprador. O crescimento está documentado, porém sua explicação completa exige informações mais detalhadas sobre volumes, preços e mercados atendidos.

Uma cadeia com diferentes competências

A atividade termoplástica reúne competências que vão da transformação de resinas à engenharia de moldes, fabricação de componentes, produção de embalagens e recuperação de materiais.

Fundada em Manaus em 1978, a Masa Molds & Plastics atua na transformação de termoplásticos e no desenvolvimento de soluções para clientes de segmentos como duas rodas, eletrônicos e linha branca. Sua trajetória mostra que a presença dessa indústria no Amazonas foi construída ao longo de décadas, acompanhando necessidades de diferentes fabricantes.

A Tutiplast, com mais de 30 anos de atuação, incorporou à sua estratégia o desenvolvimento de biocompósitos com fibras amazônicas. Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), a iniciativa utiliza materiais como ouriço da castanha e curauá e busca alternativas de menor pegada de carbono. O exemplo aproxima a transformação industrial de matérias-primas regionais e abre possibilidades de pesquisa e desenvolvimento de produtos.

Na recuperação de materiais, a Halboor descreve uma operação que recebe plásticos de cooperativas e empresas, realiza a moagem em Manaus e encaminha parte do material para São Paulo. O caso mostra que essa cadeia também envolve preparação e circulação de matérias-primas recuperadas.

Embora não representem todo o setor, esses exemplos mostram oportunidades no desenvolvimento de moldes, na engenharia de materiais, na incorporação de fibras regionais, na automação e na recuperação de resíduos. São atividades que podem ampliar o conhecimento técnico e os negócios associados à produção.

Competitividade para sustentar o avanço

No caso do Amazonas, atender clientes distantes exige combinar preço, qualidade e regularidade nas entregas. A proximidade com algumas montadoras pode facilitar o relacionamento industrial, enquanto as vendas para outras regiões colocam transporte, estoques e prazos no centro da competitividade.

A presença de insumos importados acrescenta exposição ao câmbio e às condições do abastecimento internacional. A logística precisa ser acompanhada especialmente quando a estiagem restringe a navegação e pode pressionar custos e prazos. Mesmo com vendas concentradas no mercado brasileiro, parte das condições de produção depende de acontecimentos fora do país.

Há espaço para competir pela capacidade técnica: desenvolver peças, aperfeiçoar moldes, reduzir desperdícios e atender a especificações mais exigentes. Esse caminho demanda profissionais qualificados, engenharia, automação e aproximação entre empresas, universidades e instituições de ciência e tecnologia. Programas de apoio à inovação podem contribuir, conforme as regras e a elegibilidade de cada projeto.

A circularidade também integra essa agenda. A Abiplast informa que o Brasil produziu cerca de 1,1 milhão de toneladas de resinas recicladas pós-consumo em 2025, diante de capacidade instalada de aproximadamente 2,4 milhões de toneladas. A diferença indica espaço para expansão, mas a entidade aponta entraves relacionados à coleta, triagem, qualidade, rastreabilidade e competitividade dos materiais recuperados.

Além disso, a viabilidade desses negócios no Amazonas, também precisa considerar a distância entre os pontos de geração, processamento e consumo dos materiais, além da regularidade do transporte. Aproximar recuperação de resíduos e desenvolvimento de produtos pode gerar negócios, desde que haja fornecimento consistente e atendimento aos requisitos técnicos de cada aplicação.

O que permanece no Amazonas

O avanço dos termoplásticos merece ser acompanhado pelo que pode deixar na economia amazonense. Além da receita, interessam a capacidade de conquistar mercados, formar profissionais, desenvolver soluções industriais e sustentar empregos.

No acumulado até agosto de 2026, o subsetor registrou média mensal de aproximadamente 15,8 mil trabalhadores, incluindo efetivos, temporários e terceirizados, segundo a Suframa. O número dimensiona sua importância para o trabalho industrial no estado.

O aumento do faturamento, entretanto, não permite concluir quanto houve de ganho de produtividade, ampliação da produção ou mudança nos preços. Para o Amazonas, importa acompanhar como esse desempenho se traduz em qualificação, desenvolvimento de fornecedores e oportunidades de trabalho.

Uma cadeia produtiva mais forte se constrói quando as empresas transformam um período favorável de vendas em ganhos duradouros de produtividade, tecnologia e empregos qualificados. O avanço dos termoplásticos precisa ampliar também o conhecimento técnico, os fornecedores e o valor econômico que permanecem no Amazonas.

Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, com atuação na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

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